O avanço da microeletrônica depende da formação de pesquisadores aptos a lidar com a complexidade da fabricação e modelagem de dispositivos semicondutores. Inserido nesse contexto, o trabalho de mestrado “Obtenção e caracterização de camadas depositadas de SiO para armazenamento de cargas positivas em células solares MOS tipo inversão empregadas na colheita de energia em ambientes internos” focado no desenvolvimento de células solares MOS e capacitores, conduzido pelo pesquisador William Shiga sob orientação do professor Sebastião dos Santos Filho, que atualmente é professor da USP e tem vínculo com o INCT NAMITEC, foi reconhecido pelo Prêmio José Camargo da Costa de 2026, destacando-se pela solidez de seus resultados e metodologia.
O projeto, que teve suas raízes no período em que o pesquisador cursava Tecnologia em Microeletrônica na FATEC (com acesso aos laboratórios da USP), consolidou-se ao longo do mestrado. A pesquisa exigiu a articulação entre o trabalho prático de laboratório e a análise teórica de dados, ilustrando os rigores do método científico aplicado à engenharia de materiais.
Metodologia e processos em sala limpa
O cerne do trabalho envolveu processos de microfabricação em ambiente de sala limpa (cleanroom). O ciclo de desenvolvimento dos dispositivos exigia protocolos precisos executados ao longo de vários dias. A metodologia abrangeu desde a limpeza inicial das lâminas de silício e processos de oxidação, até a evaporação térmica de monóxido de silício, etapas de litografia e a metalização dos contatos.

Após a fabricação, as amostras foram submetidas à caracterização elétrica na mesma semana. No entanto, a imprevisibilidade inerente à pesquisa e as restrições de acesso aos laboratórios ocorridas durante a pandemia demandaram adaptações no projeto. A alternativa foi direcionar o foco para o desenvolvimento de modelos matemáticos e simulações computacionais. Utilizando ferramentas de análise de dados, como Mathcad, a equipe conseguiu processar os resultados gráficos e aprimorar o modelo teórico dos dispositivos, garantindo a continuidade e a precisão da pesquisa.

A importância da colaboração em rede no INCT NAMITEC
O desenvolvimento tecnológico na área de semicondutores raramente ocorre de forma isolada. O pesquisador destaca que o suporte do INCT NAMITEC foi um eixo estrutural para a condução do projeto e para sua subsequente premiação.
A inserção no ecossistema do instituto permitiu um intercâmbio de conhecimentos fundamentais para o andamento do trabalho. Fazer parte dessa rede amplia o contato com especialistas da área e viabiliza colaborações que dificilmente ocorreriam fora do ambiente de fomento acadêmico propiciado pelo NAMITEC, integrando as descobertas de bancada a um contexto de pesquisa mais amplo.
Perspectivas e o papel da resolução de problemas
A base técnica construída durante a concepção dos capacitores e células solares MOS reflete o impacto direto da pesquisa acadêmica na formação de mão de obra altamente qualificada para o setor tecnológico. O pesquisador aplicará agora sua expertise em análise de processos no setor industrial de manufatura e inspeção de componentes eletrônicos, evidenciando a transferência de conhecimento da universidade para a indústria de alta tecnologia.
Como perspectiva para novos estudantes que ingressam no ecossistema de pesquisa, a trajetória do projeto deixa um aprendizado metodológico essencial: a pesquisa científica é pautada por adequações. A capacidade de analisar desvios nos resultados esperados, refazer testes e propor soluções para problemas complexos é a habilidade mais exigida tanto nas bancadas dos laboratórios quanto nas linhas de produção da indústria microeletrônica.
Reportagem: Maria Eduarda Rodrigues dos Santos (aluna de extensão do INCT NAMITEC)


