
Entre os dias 10 e 12 de junho, professores da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC) da Unicamp participaram de uma missão acadêmica à Indonésia para fortalecer a cooperação internacional na área de semicondutores. Durante a visita, realizada em Bandung e Jacarta, foram discutidas parcerias com universidades, institutos de pesquisa e representantes do governo indonésio voltadas ao intercâmbio de estudantes e pesquisadores, desenvolvimento de projetos conjuntos e ampliação das relações entre Brasil e Indonésia em microeletrônica. A delegação foi composta pelos professores Marco Roberto Cavallari e Marcos Puydinger, ambos pesquisadores do INCT NAMITEC, com apoio da Diretoria Executiva de Relações Internacionais (DERI) da Unicamp e dos professores José Alexandre Diniz, vice-coordenador do INCT NAMITEC e Jacobus Swart, coordenador do INCT. Entre as instituições visitadas estiveram o Institut Teknologi Bandung (ITB), a Agência Nacional de Pesquisa e Inovação da Indonésia (BRIN) e o Ministério do Ensino Superior, Ciência e Tecnologia.
Indonésia investe na expansão do setor de semicondutores
A Indonésia, país com quase 300 milhões de habitantes e localização geográfica estratégica no Sudeste Asiático, já desempenha um papel relevante na cadeia global de semicondutores. Contudo, o governo indonésio não quer se limitar a fornecer mão de obra para gigantes como Taiwan, Coreia do Sul, Japão e China. O objetivo é desenvolver a indústria nacional, atraindo de volta pesquisadores e engenheiros que hoje atuam no exterior.
Nesse contexto, o Instituto Teknologi Bandung (ITB) se destaca como uma das principais instituições de ensino e pesquisa do país, reunindo laboratórios de ponta em design de circuitos integrados, encapsulamento e caracterização de materiais. Segundo os participantes da missão, o ITB é um parceiro estratégico para a Unicamp nessa jornada de cooperação.
Benefícios para a Unicamp e para o Brasil
Além de fortalecer a cooperação científica entre Brasil e Indonésia, a missão abriu perspectivas para novas iniciativas em ensino, pesquisa e inovação. O governo indonésio demonstrou interesse na parceria com o Brasil nas áreas de microeletrônica, biocombustíveis e no setor aeroespacial, oferecendo oportunidades para que a Unicamp atue em uma parceria ampla e multidisciplinar.
Na área de microeletrônica, a parceria com a Indonésia, especialmente com o ITB, a Agência Nacional de Pesquisa e Inovação (BRIN) e o Ministério do Ensino Superior, Ciência e Tecnologia, já tem condições de render frutos tangíveis em breve.
A parceria entre a Unicamp e as instituições indonésias tem potencial para gerar resultados concretos já nos próximos anos. Um dos principais objetivos é ampliar o fluxo de estudantes e pesquisadores entre os dois países. A expectativa é receber cinco alunos de mestrado indonésios no início de 2027, com financiamento do governo da Indonésia. A partir de 2028, a cooperação poderá ser expandida para incluir estudantes de doutorado, com a chegada de mais cinco pesquisadores. No sentido inverso, embora a formalização de recursos para estudantes brasileiros ainda dependa de chamadas específicas do CNPq e da FAPESP, a Unicamp já atua junto aos órgãos competentes para viabilizar acordos de cotutela e programas de doutorado sanduíche. Além disso, o custo de vida na Indonésia é consideravelmente mais baixo que no Brasil, o que pode facilitar períodos de intercâmbio para pesquisadores e pós-doutorandos.
A cooperação também deverá fortalecer a internacionalização da pós-graduação da Unicamp, com a possibilidade de ofertar disciplinas em inglês e ampliar a atração de estudantes estrangeiros. A internacionalização é um dos critérios mais valorizados pelas agências de fomento, como CAPES e CNPq, e tende a contribuir para o fortalecimento dos programas de pós-graduação.
Ao formar pesquisadores que poderão atuar nas principais empresas do setor, como TSMC, Samsung e gigantes companhias japonesas e chinesas, a parceria amplia as oportunidades para futuras colaborações entre universidade e indústria, fortalecendo a rede internacional de cooperação da Unicamp.
Embora esta missão tenha sido organizada pela FEEC, o professor Cavallari destacou que a parceria deve envolver outras unidades, tal como o Instituto de Computação (IC) e o Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW), especialmente nas áreas de computação quântica, criogenia e dispositivos CMOS em baixíssima temperatura.
Status dos acordos institucionais
O Memorando de Entendimento (MoU) com a BRIN, existente com a Unicamp, já permite o intercâmbio de pesquisadores. A grande novidade é o avanço nas negociações para um novo MoU com o ITB, que será detalhado para incluir especificamente os programas de pós-graduação e mobilidade.
Atualmente estão sendo discutidos com a Pró-Reitoria de Pós-Graduação e a Diretoria Executiva de Relações Internacionais (DERI) a estruturação dos acordos individuais (student-by-student) para garantir que os primeiros alunos indonésios cheguem em 2027.
Em um primeiro momento o foco será no intercâmbio de estudantes de pós-graduação indonésios e brasileiros. Em um segundo estágio, poderá haver participação de indústrias e a Inova Unicamp e a Funcamp apoiarão a formalização de novos contratos. Havendo desenvolvimento conjunto, a propriedade intelectual e patentes deverão ter divisão igualitária entre as instituições.
O legado da missão
Para o professor Marco Roberto Cavallari, um dos aspectos mais marcantes da missão foi perceber o alinhamento entre governo, universidades, institutos de pesquisa e empresas na estratégia nacional da Indonésia para o setor de semicondutores.
“Uma surpresa positiva, foi perceber que a Indonésia tem uma estratégia nacional clara, para desenvolver a indústria de semicondutores do país. E não é uma questão apenas de laboratórios, equipamentos. Há um alinhamento e diria até uma cobrança, forte entre o governo, universidade, instituto de pesquisa e empresas, visando o que ela já faz hoje, que é formação de recursos humanos, mas também com um direcionamento para competências estratégicas pro país”.
Realizada ao longo de três dias, a agenda incluiu reuniões em Bandung e Jacarta com representantes de universidades, centros de pesquisa e órgãos governamentais. Além de consolidar novas oportunidades de cooperação científica, a missão reforçou a inserção internacional da FEEC e da Unicamp em uma área considerada estratégica para o desenvolvimento tecnológico.





Reportagem: Vicente José Campitelli Real (aluno de extensão do INCT NAMITEC)


